No início do século XV, período da colonização brasileira, mais de quatro milhões de negros africanos cruzaram o Atlântico para tornarem-se escravos na colônia portuguesa. Oriundos de diferentes regiões da África, entravam no país, através de navios negreiros, principalmente pelos portos do Rio de Janeiro, de Salvador, do Recife e de São Luís do Maranhão, trazendo na bagagem a cultura africana. Para evitar que houvesse rebeliões, os senhores brancos agrupavam os escravos em senzalas, sempre evitando juntar os originários de mesma nação. Por esse motivo, houve uma mistura de povos e costumes, que foram concentrados de forma diferente nos diversos estados do país. Os escravos possuíam suas próprias danças, cantos, santos e festas religiosas. Aos poucos, eles foram misturando os ritos católicos presentes com os elementos dos cultos africanos, na tentativa de resgatar a atmosfera mística da pátria distante. O contato direto com a natureza fazia com que atribuíssem todos os tipos de poder a ela e que ligassem seus deuses aos elementos nela presentes . Diversas divindades africanas foram tomando força na terra dos brasileiros. O fetiche, marca registrada de muitos cultos praticados na época, associado à luta dos negros pela libertação e sobrevivência, à formação dos quilombos e à toda a realidade da época acabaram impulsionando a formação de religiões muito praticadas atualmente - a Umbanda e o Candomblé.
É a religião que mais conservou as fontes do panteão africano, servindo como base para o assentamento das divindades que regeriam os aspectos religiosos da Umbanda. É conhecido e praticado, não só no Brasil, como também em outras partes da América Latina onde ocorreu a escravidão negra - a Santería cubana é famosa. Em seu culto, para cada Orixá há um toque, um tipo de canto, um ritmo, uma dança, um modo de oferenda, uma forma de incorporação, um local próprio e uma saudação diferente. As reuniões são realizadas em barracões rústicos e erguidos de acordo com certos preceitos: o feitio do barracão é retangular, com telhado coberto de palmas e ao seu redor são construídas casinholas para assentamentos dos santos.
Os orixás do Candomblé têm origem nos ancestrais africanos divinizados há mais de 5000 anos. Muitos acreditam que esses orixás eram capazes de manipular as forças naturais, por isso, cada orixá tem sua personalidade relacionada a um elemento da natureza.
As cerimônias são realizadas com cânticos, em geral, em língua nagô ou yorubá. Os cânticos em português são em menor número e refletem o linguajar do povo. Há sacrifícios de animais (galo, bode, pomba) ao som de cânticos e danças. A percussão dos atabaques constitui a base da música. O despacho exige azeite de dendê, farofa, cachaça e outras oferendas, variando conforme a necessidade.
Os filhos de santo são os sacerdotes dos orixás e nem todos são preparados para receber os santos. Existem os que sacrificam animais, os que cuidam dos guias quando os espíritos incorporam e ainda os que tocam o atabaque (ogãs) e os que preparam a comida a ser oferecida.
A iniciação se dá através da indicação do orixá, que atribui diferentes rituais que devem ser cumpridos de acordo com as seguintes restrições: abstinência sexual, vestimenta branca, uso de cordão apertado no pescoço, comer com as mãos e sentar só no chão.
No Brasil, existem diferentes tipos de Candomblé, o Keto, na Bahia, o Nagô, em Pernambuco, o Batuque, no Rio Grande do Sul e Angola, em São Paulo e Rio de Janeiro. Eles se diferenciam pela maneira de tocar os atabaques, pela língua do culto, e pelo nome dos orixás. A zona de maior propagação dessa religião encontra-se nos arredores de Salvador, Bahia.
Uma das religiões mais praticadas no Brasil, com maior propagação na Bahia e no Rio de Janeiro, a Umbanda brasileira começou a ser formada por volta de 1530, com a mistura de concepções religiosas trazidas pelos negros da África, na época da escravidão. O primeiro terreiro foi fundado em 1908 através de Zélio Fernandino de Moraes. Na época com 17 anos, Zélio, que fazia parte de uma família tradicional de Niterói, RJ, incorporava o chamado Caboclo das Sete Encruzilhadas e foi o responsável pela formação de sete tendas que acabaram difundindo a Umbanda. Todas as tendas funcionavam sob o lema: "manifestação do espírito para a caridade" e usavam rituais simples com cânticos baixos e harmoniosos.
A Umbanda incorpora os adeptos dos orixás africanos como caboclos, pretos velhos, crianças, boiadeiros, espíritos das águas, eguns, exus, e outras entidades desencarnadas na Terra, sincretizando geralmente as religiões católica e espírita. O chefe da casa é conhecido como Pai de Santo e seus filiados são os filhos ou filhas de santo. O Pai de Santo principia a cerimônia com o encruzamento e a defumação dos presentes e do local. Seguem-se os pontos, cânticos sagrados para formar a corrente e fazer incorporar o santo.
Muitos são os orixás invocados na cerimônia de Umbanda, entre eles Ogun, Oxóssi, Iemanjá, Exu, entre outros. Também invocam-se pretos velhos, índios, caboclos, ciganos. A Umbanda absorveu das religiões africanas o culto aos Orixás e o adaptou à nossa sociedade pluralista, aberta e moderna, pois só assim um culto ancestral poderia renovar-se no meio humano, sem que a identidade básica dos seus deuses fosse perdida.
Conheça um pouco mais sobre os principais Orixás que compõem a religião afro-brasileira.
Os filhos de Exu: extremamente raros, seus filhos precisam estar sempre em atividade para poder liberar toda energia que possuem. São astutos e ágeis, insolentes, imprevisíveis, sociáveis, provocantes e briguentos. Destacam-se por sua sensualidade, inteligência e dinamismo. Adorno: Ógo (um tipo de bastão feito e esculpido em madeira). Colar: Azul-arroxeado. Vestes: Azul, branca e vermelha. Saudação: Larôye, Exu! Oferenda: Farofa com dendê, feijão, inhame, água, mel e aguardente.
Os filhos de Ogum: A companhia dos amigos e a sensualidade são essenciais para eles. A rotina os arrasa, pois além de dinâmicos, são arrebatadores. Aparentemente são calmos, mas, na realidade, escondem dentro de si toda a impetuosidade do guerreiro violento e devastador. Normalmente curiosos e demasiadamente francos, às vezes chegam à falta de tato. Não gostam de perdoar, nem de perder, o que para eles tem o sabor de uma derrota ocorrida num campo de batalha.
Adorno: Espadas e peças, tudo em ferro.
Colar: Azul-escuro ou verde.
Vestes: Azul, vermelha ou verde.
Saudação: Ogunyê!
Oferenda: Feijoada, xinxim, inhame.
Os filhos de Xangô: eloqüentes, sociáveis e bons ouvintes, mas gostam sempre de dar a última palavra, mostrando que também são autoritários. Contraditórios, são aristocráticos, libertinos e infiéis em seus relacionamentos. Volúveis, esquecem rapidamente as paixões passadas. Estão sempre envolvidos em novas aventuras e a paixão atual é sempre a maior, a única, a verdadeira.
Adorno: Oxé, machado duplo de dois cortes laterais, feito e esculpido em madeira.
Colar: Vermelho e branco em contas alternadas.
Vestes: Vermelha, branca e marrom.
Saudação: Káwo-kabiesile!
Oferenda: cerveja escura, vinho tinto doce, licor de ambrósia.
Os filhos de Oxalá: quando sob a influência de Oxalufan, são calmos tranqüilos, relacionando-se com equilíbrio e tolerância com pessoas, mesmo nos momentos mais difíceis. Amáveis e prestativos, são voltados para a espiritualidade, sabedoria e domínio da situação. Quando dos os poderes de Oxaguian, assumem seu lado guerreiro e valente, de caráter romântico e vigoroso. Ágeis e combativos, chegando a ser geniosos, às vezes são calados, galantes e majestosos, transmitindo altivez.
Adornos: Opaxorô, um grande cajado enfeitado, feito com prata ou metal branco, quando Oxálufan, uma espada e mão de pilão também em metal branco, quando é Oxaguian.
Colar: Oxalufan, branco-opaco e Oxaguian, branco salpicado com azul real.
Vestes: Branca.
Saudação: Epa baba!
Oferenda: frutas, coco verde, mel.
Seu nome significa mãe dos filhos-peixes. Originária do rio Ogun, na Nigéria, tem seus domínios nas profundezas das águas, de onde emerge para atender seus devotos, principalmente as mulheres que atribuem a ela poderes que favorecem a fertilidade e a fecundidade. É maternal, sempre pronta para amamentar as crianças sob seu domínio, mas também sabe ser belicosa, mantendo-se de espada em punho para defender seus filhos e seus direitos.
Os filhos de Iemanjá: são autoritários, persistentes, preocupados, responsáveis e decididos. De personalidade amiga e protetora chegam às vezes, quando mulheres, a se comportar como supermães. São agressivos e até traiçoeiros, quando a segurança dos filhos e da família está em jogo. São faladores, e não gostam da solidão.
Adorno: Um leque.
Colar: Cristal transparente.
Vestes: Branco e prata.
Saudação: Odo Iyá.
Oferenda: champagne, calda de ameixa ou de pêssego, arroz doce e melão.
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